O Efeito Colateral da Ciência

cienciaO objetivo deste ensaio é discutir sobre a natureza da pesquisa cientifica, determinar qual a verdadeira responsabilidade da ciência [e dos cientistas] sobre as decisões e aplicações dos conhecimentos produzidos pelas pesquisas, os limites da ciência e o mito de que a Ciência é neutra e isenta de valores.
É inegável que a ciência ocupa uma parcela de grande importância no cotidiano – por exemplo, na produção de tecnologia, descobrimento de novos medicamentos e drogas para tratamento de doenças – gerando maior “qualidade” e aumento da expectativa de vida. Por estes e outros motivos, tudo que diz respeito a alguma forma de ciência tende a ter maior credibilidade, como quando se diz que um determinado produto é cientificamente testado, ou que um material foi aprovado nos testes científicos etc. Com isso, a maioria das pessoas – e também os cientistas – cultivam um certo cientificismo (modo de pensamento que acredita que tudo pode ser explicado pela ciência).

A alta estima da ciência não está restrita à vida cotidiana e à mídia popular. Muitas áreas do conhecimento são descritas como ciência por seus defensores, presumivelmente num esforço de conferir mérito ou maior confiabilidade. Ciência Política, Ciências Sociais, Ciência Administrativa, Ciência do Discurso, Ciência Bibliotecária, e mesmo Ciência Mortuária são hoje ou foram ensinadas em universidades americanas (CHALMERS, 2001).

Alan Chalmers, em O que é Ciência afinal, nos conta que a importância concedida à ciência deve-se ao fato de que há quem a considere como a religião dos nossos tempos, e os cientistas, seus sacerdotes, desempenhando um papel semelhante ao do cristianismo na Europa, em séculos passados.
 
Durante os séculos XVII, XVIII e XIX, a ciência alcançou um alto grau de precisão, principalmente devido ao sucesso das leis de Newton, o eletromagnetismo de Faraday e Maxwell, a revolução da química com Lavoisier, a teoria da Evolução de Darwin. No entanto, ao longo do século XX, o desenvolvimento da ciência implementada pela descoberta da relatividade, a mecânica quântica, a física nuclear e os avanços alcançados pela biologia, trouxeram a impressão do retorno da Besta do Apocalipse, a sensação de que, a qualquer momento, toda a vida poderia ser destruída com a possibilidade de produzir armas de destruição em massa, bombas nucleares e o risco de guerras biológicas.

Attico Chassot, em seu livro Alfabetização Científica, alerta para que a ciência não seja encarada apenas como uma fada benfazeja que só produz maravilhas e gera maior qualidade de vida às pessoas.
Entre duas guerras mundiais e outras mais terríveis, desastres ambientais sem precedentes, nos quais a Ciência e os cientistas pareciam estar profundamente envolvidos, é chegada a hora de se haverem com a ética, com a humanidade e com eles mesmos (TRINDADE & TRINDADE, 2003).

A ciência pode parecer totalmente boa ou totalmente má. Para alguns ela é um cavaleiro das cruzadas cercado de místicos simplórios, enquanto figuras mais sinistras aguardam para fundar um novo fascismo nascido do triunfo da ignorância. Para outros, ela é o inimigo. Nosso planeta gentil, nosso sentimento de justiça, nossa sensibilidade poética e estética são agredidos por uma burocracia tecnológica – a antítese da cultura – controlada por capitalistas cujo único interesse é o lucro (Colins & Pinch, 2000).

Paul K.Feyerabend chegou a sugerir que um mundo sem ciência “seria mais agradável que o mundo em que vivemos hoje”. Nesse ponto é importante considerar que realmente haveria menos poluição, menos câncer ou outras doenças causadas por esta, menos aglomeramento urbano etc. Mas também seria um mundo com alta taxa de mortalidade infantil, expectativa de vida média de 40 a 50 anos e sem nenhuma maneira de escapar do calor do verão ou de se proteger do frio do inverno.

Ninguém duvida que a ciência modificou profundamente nossa sociedade e esta transformação vem se acentuando rapidamente.
Para alguns a ciência proporciona autonomia agrícola, a cura de doenças, uma rede de comunicação global. Para outros, ela fornece as armas de guerra, alterações climáticas, os acidentes nucleares.

No entanto, essas duas visões ciência são erradas e perigosas. Sua personalidade não corresponde nem ao cavaleiro nem a um impiedoso deus. Antes de mais nada, é necessário acabar com o mito de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que as outras. Atualmente, os cientistas têm uma compreensão muito limitada não apenas do conhecimento que produzem, mas também do seu contexto social.

A ciência é um fato social, como muitos outros, tais como religião, família, exércitos, partidos políticos, instituições que se organizam em torno de certos problemas e estabelecem regras para seu conhecimento.

Bibliografia Consultada

CHALMERS, Alan F. O que é ciência afinal? 1º Ed. São Paulo: Brasiliense, 2001
CHASSOT, Atico. Alfabetização Científica – questões e desafios para a educação. 4º edição. Rio Grande do Sul: Unijui, 2006.
COLLINS, Harry; PINCH, Trevor. O Golem: o que você deveria saber sobre ciência. São Paulo: UNESP, 2000.
TRINDADE, Diamantino Fernandes; TRINDADE, Laís dos Santos Pinto. A História da História da Ciência. São Paulo: Madras, 2003.

3 respostas para O Efeito Colateral da Ciência

  1. Nucleo Jose Reis disse:

    ESPERANDO ATUALIZAÇÃO…VOCÊ CONTINUA SENDO LIDO…ABRAÇOS…DEZEMBRO…RSRS…

  2. Milene disse:

    Vc continua sendo meu orgulho!

  3. Karina disse:

    Eu acho que Deus deu a sabedoria aos homens, o único problema é que os homens não sabem controlar essa sabedoria e auto se destroem.

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