Os cemitérios como fontes de poluição ambiental

Cemiterios%20png%20scrA Revista Ciência Hoje de setembro traz na capa um artigo que denuncia um problema sério, principalmente para as grandes cidades, e que tem sido praticamente ignorado pelos grandes veículos de informação. Cemitérios: fontes potenciais de contaminação.

Os autores do artigo[1] – Robson Willians da Costa Silva e Walter Malagutti Filho – advertem que a falta de medidas de proteção ambiental no sepultamento de corpos humanos em covas abertas no solo fez com que a área de muitos cemitérios fosse contaminada por diversas substâncias, orgânicas e inorgânicas, e por microrganismos patogênicos.

Em uma conversa com alguns colegas de trabalho constatei que este assunto é praticamente desconhecido do grande público, mesmo de tratando de uma questão de extrema importância. Embora este seja um assunto, aparentemente, recente, a preocupação com a contaminação causada pela decomposição dos cadáveres nas sepulturas é bastante antiga. Os autores do artigo publicado na Ciência Hoje apontam dados históricos relevantes sobre a preocupação com os perigos que podem ser gerados pelos cemitérios.

O costume de enterrar os cristãos mortos nas igrejas ou em suas imediações começou durante a Idade Média. Essa prática significou uma aproximação entre os cadáveres, muitos vitimados por doenças contagiosas, e os vivos, o que aumentou significativamente a disseminação dos agentes patogênicos em epidemias como as de tifo, peste bubônica e outras […] Embora algumas civilizações, como a romana, já determinassem que os mortos deviam ser enterrado fora dos limite da cidade, foi a partir do século 18 que a palavra cemitério começou a ter o sentido  atual quando por razões de saúde pública  foi proibido o sepultamento nos locais habituais (em terras da família ou em igrejas. A França, já em 1737 uma comissão de médicos formada pelo Parlamento de Paris, recomendou mais cuidado nas sepulturas e decência na manutenção dos locais onde os mortos eram enterrados. Na mesma época , em 1743, o abade francês Charles-Gabriel Porée publicou um texto condenando os enterros em igrejas e propondo a criação e cemitérios fora das cidades . Autoridades de países e cidades da Europa, a partir daí passam a proibir e sepultamentos nas igrejas a promover a instalação de cemitérios, para que os enterros ocorressem ao ar livre e longe do perímetro urbano. Em Portugal , em 1801, o príncipe regente D. João VI proibiu os sepultamentos em igrejas (inclusive em suas colônias, como o Brasil).

Neste ponto acredito ser importante destacar a figura de Vicente Coelho de Seabra e Silva Telles. Silva Telles nasceu em Congonhas do Campo, Minas Gerais em 1764. Concluiu seus estudos secundários no Brasil. Aos 19 anos foi para Coimbra, em 1793, a fim de estudar Medicina. Obteve o grau de Bacharel em Matemática e Filosofia , em 1786, que correspondia aos quatro primeiros anos do curso de Medicina. Tornou-se Médico em 1791.

Foi aluno de Domenico Vandelli e colega de José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos pioneiros da metalurgia brasileira.

MemoriaSilva Telles foi um cientista integrado às descobertas de seu tempo. Teve grande destaque na Química e foi um dos primeiros introdutores e difusores, em Portugal, da nomenclatura e da química pneumática de Lavoisier. Sua obra mais importante foi Elementos de Chimica onde revelava sua adesão à nova Química de Lavoisier.

 

Memoria 1Em 1801, publicou Memórias sobre os Prejuízos Causados pelas Sepulturas dos Cadáveres nos Templos e o Método de os prevenir.

 Já no início do século 17 Silva Telles demonstrava o problema ambiental que os cemitérios provocam. O sepultamento de cadáveres gera poluição para o meio físico, e por isso deve ser considerada como atividade causadora de impacto ambiental.

Memoria 2

 

 

Assim como a decomposição do lixo produz o chorume, de modo semelhante, a decomposição dos cadáveres produz o necrochorume, um liquido viscoso de cor castanho-acinzentada, com 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas degradáveis. Apresenta auto grau de patogenicidade devido a presença de bactérias, vírus e outros agentes causadores de doenças.

 

necrochorumeOs compostos derivados da decomposição dos corpos representam riscos de contaminação para as águas superficiais, águas subterrâneas (lençóis freáticos) e contaminação do solo, inclusive por metais pesados.

Os cemitérios no Brasil são muito antigos e, principalmente devido à ocupação imobiliária, a população está exposta à uma grande variedade de contaminações. Como vimos, a preocupação com este tipo de contaminação é antigo. Entretanto, os trabalhos de pesquisa e investigação nesta área ainda são escassos, assim como a divulgação dos resultados às pessoas, que são as principais afetadas pela poluição causada pelos cemitérios.

 


[1] Para ler o artigo completo acesse: http://cienciahoje.uol.com.br/153047

3 respostas para Os cemitérios como fontes de poluição ambiental

  1. Érica disse:

    Olá, Eduardo.

    Acho interessante esse assunto, e é incrível que no século XVIII já se pensava nos danos em que os cemitérios poderiam causar para o solo.
    A obra de Silva Telles no início do século XIX, deveria ter sido um grande alerta para o mundo, é tão necessário que governos, cientistas e pesquisadores se unem e invistam numa solução.

    Você conhece a pesquisadora Ana Paula Silva Campos, ela estudou o tema em sua dissertação de mestrado em Saúde Ambiental na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, é muito interessante.

    Sds, Érica!

  2. Tercília disse:

    Excelente tema, deveria ser abordado com mais intensidade de por parte das autoridades competentes, pois de certa forma a população fica exposta ao perigo da contaminação.
    E são poucas as pessoas que param para refletir sobre o assunto.
    Grande abraço

  3. nereida disse:

    ótima, excelente matéria, meu tcc é sobre esse assunto

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