Raízes históricas da ciência no Brasil

ldjviDurante muito tempo as questões relativas ao desenvolvimento da Ciência no Brasil ficaram relegadas a alguns poucos trabalhos de investigação que, na maioria das vezes, se prestavam a um enunciado de datas e fatos sem vínculo com o contexto histórico, político e social de cada época. Sobre esse aspecto o trabalho de José Carlos de Oliveira é um divisor de águas. Formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, vem atuando em diversos projetos de História da Ciência e História da Ciência no Brasil. Em seu livro D. João VI – adorador do Deus das Ciências? A Constituição da Cultura Científica no Brasil (1808 – 1821), consegue, com muita habilidade e clareza, retratar de forma surpreendente o quadro da história da ciência e da tecnologia no Brasil. Além desta obra, tem dezenas de artigos publicados em anais de congressos e publicou, entre outros livros, O Patriota e a Cultura Científica no Brasil Joanino (1813-1814) pela editora Lumave em (2004).

José Carlos de Oliveira nos conta que a vinda da Família Real para o Brasil foi um evento sem precedentes na história das Américas, provocando de imediato a emissão pelo novo governo de uma série de alvarás, decretos, leis, decisões, resoluções e cartas régias, que começaram a alterar o panorama implantado desde a colonização. Muitas destas ações, direta ou indiretamente, foram responsáveis pelo início da estruturação das atividades relacionadas à ciência no país.

O livro é articulado em duas partes. Na primeira, mais breve com cerca de 50 páginas, o autor discute as variedades nas pesquisas em História da Ciência, diferentes abordagens e considerações historiográficas. Tendo em vista todo o conjunto de argumentação desta parte do livro, o autor conclui que, no caso brasileiro e no período citado, houve no governo joanino uma irrupção da cultura científica no Brasil. Na segunda parte do livro, dado o significado e a força que tal asserção empresta ao estudo da História da Ciência no Brasil, procura-se detalhar mais extensivamente os traços da cultura científica impressos na sociedade brasileira de então.

No período colonial, não havia condições propícias para o desenvolvimento da Ciência, pois o principal objetivo da Coroa Portuguesa era o extrativismo que cumpria o projeto de enriquecimento rápido da metrópole. Embora algumas atividades científicas fossem desenvolvidas no Brasil, na maioria das vezes, eram atividades isoladas e que não tinham continuidade.

Ao discutir a política científica de D. João, o autor apresenta um panorama da ciência na Europa no começo do século XIX. Entretanto, o contexto da Ciência de Portugal e Brasil antes de 1808 em nada se assemelha ao praticado em países como Inglaterra e França no período. A revolução científica deflagrada na Europa com os trabalhos de Kepler, Galileu e Newton, entre outros, seguida do pensamento iluminista disseminado no século seguinte, parece ter encontrado uma grande resistência em território português, que por sua vez, apoiava os textos clássicos baseados numa filosofia aristotélica. Embora Portugal estivesse em contato mais próximo com os acontecimentos científicos franceses e ingleses, não estava integrada com esses países no que tange às produções, criações e descobertas no campo da ciência.

A súbita chegada da corte portuguesa permitiu que, com sua bagagem e seus livros, seus conhecimentos, aumentassem nossas expectativas com relação aos benefícios que poderíamos receber da ciência que se produzia nos países europeus. No campo da cultura cientifica houve, de fato, um brusco salto de qualidade e quantidade. Esse aumento repentino das atividades cientificas, com a criação de instituições, cursos e divulgação da Ciência, foi proporcionado pelas expectativas da instalação da corte real portuguesa em terras brasileiras.

A cultura cientifica no Brasil contou para seu desenvolvimento, na época, com mais de duas dezenas de membros na Academia de ciências de Lisboa, além de várias dezenas de intelectuais que estudaram tanto em Portugal quanto em outros países europeus. De modo geral, pode-se dizer que os homens de ciência “locais” eram produtos da educação européia, que procuravam adequar-se à realidade existente

Concluindo este trabalho, José Carlos de Oliveira acrescenta que embora a transferência da corte lusa para o Brasil com toda a plêiade de medidas econômicas e culturais, entre elas a abertura dos portos, tenha sido um golpe mortal ao pacto Colonial,  apesar de ter contribuído para a independência política do Brasil, a economia tinha como traços gerais continuar a ser agroexportadora e ter a base de sua produção econômica assentada no trabalho escravo, que a rigor em nada ajudaria o progresso técnico, um parceiro fundamental da Ciência Moderna.

Este livro é uma obra que permite compreender as condições em que se deu o processo de institucionalização de uma Ciência Luso-brasileira. Um trabalho de muita qualidade que, com certeza, deverá tornar-se bibliografia obrigatória para estudiosos do período joanino e para quem pretende compreender as raízes históricas da ciência no Brasil.

 

OLIVEIRA, José Carlos de; D. João VI – adorador do Deus das Ciências? A Constituição da Cultura Científica no Brasil (1808 – 1821). Coleção Engenho & Arte – Vol. 8. Rio de Janeiro: e-papers, 2005.

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