Democratização da ciência – Reflexões sobre a cultura científica

Texto publicado originalmente na Revista Vox Scientiae em janeiro de 2009.

Nos últimos anos, a importância concedida à alfabetização científica de todas as pessoas tem sido ressaltada num grande número de trabalhos de investigação, publicações, congressos e encontros sobre Educação e Ciência. Desse modo, a crescente importância atribuída à educação científica exige um estudo atento sobre como conseguir tal objetivo, e ainda, quais os obstáculos que se opõe à sua execução.

É indiscutível que a Ciência permeia todas as nossas atividades diárias, então, nada mais necessário do que conhecê-la, porque também somos responsáveis pelo uso, e dela não podemos nos omitir. No entanto, ao discutir algumas questões relacionadas à democratização da ciência é necessário considerar alguns aspectos referentes a percepção pública da ciência. Sobre este assunto, Jean Marc Lévy-Leblond1 comenta que com freqüência, agimos como se o problema estivesse meramente relacionado à compreensão do conhecimento. Em outras palavras, queremos acreditar que, se o publico não aprova ou não apóia o desenvolvimento da ciência, como ocorria no passado, isso se deve ao fato de que não a compreende. Em uma palestra proferida em 2006 o autor supracitado acrescenta que quando usamos a expressão “percepção pública da ciência”, dividimos automaticamente a humanidade em público leigo “ignorante”, de uma lado, e “nós”, os sábios cientistas de outro2.

Em sua obra Filosofia da Ciência – introdução ao jogo e suas regras, Rubem Alves argumenta que o cientista virou um mito. Entretanto, todo mito é perigoso porque induz o comportamento e inibe o pensamento. Existe uma classe especializada em pensar de maneira correta [os cientistas], os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Rubem Alves comenta que, antes de mais nada, é necessário acabar com o mito de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que as outras. Sobre esse aspecto, Lévy-Leblond argumenta que uma das principais características do nosso tempo é justamente o fato de que essa dicotomia deixou de existir. Os cientistas não são diferentes do público em geral, salvo no campo bem delimitado de sua especialização. Diante de problemas como os riscos que as usinas nucleares acarretam, ou os perigos da radioatividade, por exemplo, um biólogo pode estar na mesma posição de um leigo, assim como um astrofísico pode não ter muito a dizer sobre questões referentes à fisiologia vegetal.

O problema vai muito além do âmbito deste ensaio, refere-se essencialmente à possibilidade de democratizar as escolhas científicas e tecnológicas que, devemos admitir, passam por cima dos atuais procedimentos democráticos. Ao destacar essa questão essencialmente política, Lévy-Leblond ultrapassa o âmbito da “percepção pública da ciência”, pois o problema não está apenas em compartilhar o conhecimento, mas, em primeiro lugar, em compartilhar o poder.

Paul Feyerabend, em Contra o Método, sugere que em uma sociedade democrática, instituições, programas de pesquisa e sugestões têm, portanto, de estar sujeitos ao controle público. Mas para que isso ocorra é preciso que haja uma separação entre Estado e ciência da mesma forma que há uma separação entre Estado e instituições religiosas.

Para tornar efetiva uma democratização da ciência é preciso que se tenha uma sociedade educada, no entanto, como já foi dito, isso não depende apenas de informar o cidadão sobre o que acontece na ciência. A esse respeito, Lévy-Leblond destaca que com certeza os cidadãos gostariam de entender as manipulações genéticas ou a energia nuclear, contudo, teriam mais condições de fazer alguma coisa a esse respeito se pudessem escolher os rumos da pesquisa e exercer seu poder de decisão sobre o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Nenhuma das idéias que subjazem a argumentação é nova. De fato, em um sentido mais profundo, nem sequer compreendemos a nossa própria ciência. Está mais do que na hora de nós, os cientistas, admitirmos que nosso conhecimento é na realidade muito limitado. Não só dominamos uma parcela muito limitada do seu conteúdo, como também não temos absolutamente nenhum conhecimento do contexto social em que ele se produz. Paul Feyerabend também levanta a questão de ciência versus democracia: Ora, se a ciência não é mais uma unidade, se partes diferentes dela procedem de maneiras radicalmente diferentes e se as conexões entre essas maneiras são ligadas a episódios particulares da pesquisa, então os projetos científicos têm de ser considerados individualmente. Isso é o que as agências governamentais começaram a fazer há algum tempo, ou seja, não mais financiam “a ciência”, financiam projetos particulares. Em outras palavras, mas dentro do mesmo contexto, Lévy-Leblond acrescenta que hoje não mais existe uma “cultura científica”. O problema é muito mais grave do que o acarretado por uma simples busca de meios mais eficientes para a difusão de uma cultura científica e que precisa apenas ser transmitida ao público leigo. O problema está na inserção da ciência na cultura, e isso requer uma profunda mudança no próprio modo de fazer ciência.

O problema da alfabetização científica deve ser pensado dentro da problemática geral da Educação. Há muito tempo, a educação deixou de ser entendida como instrumento indispensável na formação do cidadão e vem sendo praticada como mero treinamento. A ciência deve ser inserida na vida das pessoas por intermédio das escolas e, principalmente, ser ensinada como uma concepção entre muitas e não como o único caminho para a verdade e a realidade, e que os resultados da ciência repercutem em todos os âmbitos da existência, pois estão associados à produção de tecnologia. Tal ciência é uma das invenções mais maravilhosas da mente humana. Mas não podemos apoiar ideologias que usam o nome da ciência para o assassínio cultural.

1Jean Marc Lévy-Leblond é professor emérito da Universidade de Nice desde 2002. Atua nos domínios da educação científica, história, política e filosofia da ciência.
2Palestra proferida no IX Congresso de Comunicação Pública da Ciência e da Tecnologia (PCST), organizada pela PCST International Network em Seul, em maio de 2006.

Bibliografia consultada

ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência – Introdução ao jogo e as suas regras. 12º edição. São Paulo: Edições Loyola. 2007.
FEYERABEND, Paul K. Contra o Método. 3 ed. São Paulo: Editora UNESP, 2003.
LÉVY-LEBLOND, Jean-Marc. Cultura Científica: Impossível e Necessária. In: VOGT, Carlos. Cultura Científica. São Paulo: Edusp-Fapesp, 2006.

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