Um novo olhar sobre antigas controvérsias na Teoria da Evolução

ma_iguana2O objetivo deste ensaio é discutir algumas idéias que levaram Charles Darwin à formulação de sua teoria sobre a Origem das Espécies proposta na segunda metade do século XIX.. Qual o verdadeiro papel do acaso na teoria da evolução e como atua a seleção natural? Estas e outras questões serão discutidas, não no intuito de buscar uma resposta definitiva e acabada, mas visando apresentar as controvérsias e disputas envolvidas, bem como os avanços obtidos pela ciência desde a publicação de A Origem das Espécies.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, Darwin não foi o primeiro a propor a idéia de que espécies de plantas e animais podem sofrer modificações com o passar do tempo. Na última década do século XVIII, o avô de Charles Darwin, Erasmus Darwin, escreveu um tratado sobre a evolução e pouco tempo depois, em 1809, o naturalista francês Jean Baptiste de Lamarck publicou sua Filosofia Zoológica, em que apresenta conclusões sobre a mutabilidade das espécies biológicas. Mas é de Darwin que se originou a moderna teoria da evolução.

Para entender como Darwin chegou à sua teoria sobre a origem das espécies é preciso reconstruir sua viagem por cinco anos ao redor do globo, a bordo do Beagle. Foi durante essa viagem que Darwin realizou seu famoso estudo nas Ilhas Galápagos, dando os primeiros passos para aquela que viria a ser a maior descoberta científica do século XIX. Neste período Darwin coletou e catalogou um grande número fósseis de espécies de animais e plantas, além de realizar um amplo estudo geológico. Darwin começou a refletir sobre as relações entre as espécies de diferentes regiões. Constatou que a relação entre fósseis e organismos vivos traria esclarecimentos sobre o modo como as espécies surgiram.


Charge satirizando Charles Darwin

 

Em sua teoria da evolução Darwin apresentou um mecanismo plausível para explicar a modificação das espécies, a seleção natural. Foi em 1938, após ter lido Um ensaio sobre o princípio da população, de Thomas Malthus, que Darwin pensou em seleção natural pela primeira vez. Malthus, um economista e político do século XIX, estava preocupado com o crescimento das populações humanas e destacava o fato de os organismos vivos produzirem um número maior de descendentes do que aquele que normalmente se pode esperar que sobreviva até a idade reprodutiva. O trabalho de Malthus fez Darwin compreender que deveria haver uma seleção entre a prole para decidir quais deveriam sobreviver. Desse modo, Darwin conclui que da mesma maneira que se podem realizar mudanças em animais domésticos selecionando artificialmente características consideradas desejáveis, a natureza “seleciona” os membros de uma espécie que sejam mais capazes para enfrentar os rigores da vida, ou seja, de acordo com a mudança do ambiente a seleção natural faz com que determinadas características de uma população sejam favorecidas. A seleção decorre das restrições que o ambiente impõe à sobrevivência dos organismos, tais como disponibilidade de alimentos, disputa por recursos com outros seres vivos, ação de predadores e parasitas, doenças etc. Nessas condições, os mais aptos são aqueles que herdam combinações genéticas favoráveis à sobrevivência e à reprodução.

 

Nesse ponto é importante perguntar sobre o papel do acaso na evolução, e como a seleção natural atua sobre cada organismo?

 

Existe uma grande confusão quando se aborda o acaso na teoria da evolução, a idéia que se transmite na maioria das vezes é que tudo se deve à ação do acaso, quando na verdade é o oposto, a seleção natural é implacável e rígida. Na verdade a escolha do termo “seleção” foi infeliz, por sugerir que há algum agente na natureza que deliberadamente seleciona. Por isso chegou a ser sugerido que o termo seleção fosse substituído por “eliminação não-randômica”. De um modo geral, pode-se entender que os organismos “selecionados” são simplesmente aqueles que continuam vivos depois que os indivíduos menos adaptados ou com pior sorte são eliminados da população.

 

 

A seleção natural deve, portanto, ser entendida em duas etapas.
A primeira é a produção de uma variação genética a cada geração devido à recombinação genética, ao fluxo genético e a mutações. E o papel do acaso então fica restrito à ocorrência de mutações genéticas, mas é obvio que Darwin não tinha condições de saber isto, já que a genética ainda não existia em sua época e que os trabalhos de Mendel só foram redescobertos muitos anos mais tarde.
A segunda etapa é a seleção propriamente dita. Isso significa que as taxas de sobrevivência e reprodução dos indivíduos serão diferentes, ou seja, a cada geração, apenas uma porcentagem muito pequena dos indivíduos na maioria das espécies sobreviverá, e alguns indivíduos, devido à sua constituição genética, terão maiores chances de sobreviver naquele ambiente específico.
Outra questão que ainda é motivo de controvérsia entre os evolucionistas é o modo como atua a seleção natural. Ernst Mayr em 1963 define seleção natural como “sucesso reprodutivo diferencial” não aleatório. Essa formulação ainda é válida hoje em dia, mas ela enfatiza o resultado do processo e não o seu mecanismo, isto é, qual o objeto ou alvo a ser selecionado? A espécie, o indivíduo, o gene?

 

Para Darwin a seleção natural atuava somente sobre o indivíduo, embora fizesse exceção para o caso dos insetos sociais. É o indivíduo que luta pela sobrevivência, se reproduz e transmite suas características favoráveis à prole. Hoje, a maioria dos evolucionistas adota um ponto de vista parecido. Entretanto, houve um tempo em que foi aceita a idéia de que a seleção natural opera no nível das espécies. Essa teoria que ficou conhecida como seleção de grupo foi proposta para explicar comportamentos que pareciam ser atos altruístas entre os animais, sugerindo que esses atos eram “para o bem da espécie”.
 
A maior parte dos geneticistas tem considerado como alvo da seleção o gene. George C. Williams, geneticista estadunidense, pai do conceito de gene egoísta popularizado por Richard Dawkins, rejeita a seleção de grupo e defende que o gene é uma unidade genética suficientemente pequena para durar um grande número de gerações e ser distribuída sob a forma de muitas cópias. Os genes são imortais, saltando de um corpo para o outro, geração após geração, manipulando-os à sua maneira e para seus próprios fins, e abandonando essa sucessão de corpos mortais antes de eles soçobrarem na senilidade da morte. Nas espécies de reprodução sexuada, os indivíduos são máquinas de sobrevivência que duram no máximo algumas décadas. Os genes, por outro lado, têm uma expectativa de vida de milhares ou milhões de anos. Os indivíduos não são coisas estáveis. Eles são efêmeros. Os genes, ao contrário, não são destruídos no crossing-over, eles apenas trocam de parceiros e seguem em frente. Eles são os replicadores e os indivíduos, suas máquinas de sobrevivência.

 

No entanto, os naturalistas continuam a insistir firmemente que é o indivíduo como um todo o principal alvo da seleção, e que a evolução deveria ser considerada como os processos gêmeos de mudança adaptativa e origem da diversidade. Uma vez que o gene não é exposto diretamente à seleção natural.

 

A genética não existia em 1859, quando Darwin publicou Origem das Espécies. Para ele, o indivíduo era o objeto de seleção, e assim foi para a maioria dos darwinistas até a ascensão da genética. A maioria dos geneticistas adotou então o gene como alvo de seleção, ao passo que, para a maioria dos naturalistas o alvo permanecia sendo o indivíduo.

 

 

No meio de toda esta controvérsia acredito que há dois significados diferentes para objeto de seleção. O alvo de seleção no sentido de replicador é o gene, e no sentido de veículo, o indivíduo. Ambos são igualmente importantes, só fazem coisas diferentes. Não estão competindo pelo papel de objeto de seleção.

Referência Bibliográfica
DARWIN, Charles. A Origem das Espécies. São Paulo: Martin Claret, 2008.
DAWKINS, Richard. O Gene Egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
_________, O Relojoeiro Cego – A teoria da evolução contra o desígnio divino. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
HELLMAN, Hal. Grandes debates da Ciência – dez das maiores contendas de todos os tempos. São Paulo: Ed. UNESP, 1999.
MAYR, Ernst. Biologia, ciência única. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
_________, Isto é biologia: a ciência do mundo vivo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
STEFOFF, Rebeca. Charles Darwin – A Revolução da Evolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 


* Eduardo Crevelário de Carvalho é Professor de Ciências da Prefeitura de São Paulo e aluno do curso de Especialização em Didática para o Ensino Superior pelo CEFET-SP e Especialização em Teoria e Prática de Divulgação Científica pelo Núcleo José Reis de Divulgação Científica ECA-USP.

 

 

 

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