Existe método para as grandes descobertas da ciência?

penziaswilsonO objetivo deste ensaio é refletir sobre a ciência e seu tão badalado método. Existe mesmo um “método científico” que justifique toda a credibilidade depositada na ciência? Poderia esse método explicar como ocorreram grandes descobertas e invenções ao longo da história da ciência e da tecnologia?

Como um contratempo na limpeza da cozinha com um avental de algodão resultou no desenvolvimento dos explosivos modernos? Como o interesse de um pesquisador em entender porque suas culturas de bactérias morriam, resultou na descoberta de um antibiótico que salvou milhares de vidas? Essas e outras questões serão abordadas e discutidas neste texto.

 

Nos tempos modernos, a ciência é tida como garantia de credibilidade e confiança. Aparentemente, há uma crença amplamente aceita de que há algo especial a respeito da ciência e de seus métodos. A atribuição do termo “científico” a alguma afirmação confere um tipo de mérito especial de confiabilidade[1].

O físico e filósofo da ciência austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) argumentou em sua obra Contra o Método, que não existe algo que se possa chamar de “método científico”. Santos Filho (2005) argumenta que alguns críticos viram nisso um ataque à ciência, visando retirá-la de cima de seu pedestal de fama. A ciência não seria mais do que uma forma de tradição e, nesse sentido, poderia ter tanto direito a ser levada a sério quanto outras tradições, como a astrologia, a feitiçaria e a medicina popular.

Isso cria um impasse a respeito da ciência e seus métodos. De fato, ao longo da história da ciência não existiu nada que possa ser chamado método. Desse modo, se não há método, como diz Feyerabend, “qualquer coisa vale” – daí o termo anarquismo. Para Feyerabend, a intuição, a sorte, a persuasão e as preferências pessoais contariam mais do que o “método” para o sucesso de uma teoria científica.

Uma teoria científica pode [e deve] ser metodicamente testada, e é isso que separa o discurso da ciência dos demais discursos. Entretanto, não existe método para a descoberta de uma teoria (ALVES, 2000). De fato, grandes descobertas científicas parecem estar envolvidas de casualidade. Em 1754, o político e escritor inglês Sir Horace Walpole criou a palavra “serendipidade”, que usou numa carta na qual contava uma descoberta acidental, mas feliz, sobre um conhecido.

A história da ciência e da tecnologia está repleta de serendipidade. Por exemplo, em 1948 George de Mestral saiu para caminhar em um campo na Suíça e viu algumas sementes espinhosas grudadas em suas calças, reparou que seus ganchos finos tinham ficado presos nas dobras do tecido e teve a inspiração para inventar o Velcro. Em outro exemplo de serendipidade, Art Fry tentava desenvolver uma supercola quando acidentalmente produziu uma cola tão fraca que dois objetos grudados com ela poderiam ser separados facilmente. Com este aparente fracasso foi possível produzir os adesivos post-it[2].

Em 1895, Wilhelm Röntgen estava investigando as propriedades das descargas elétricas produzidas em duas placas metálicas (o catodo e o anodo) quando se deparou com um efeito inesperado. Mesmo após cobrir o tubo com um papel cartão preto bem espesso, observou que uma tela pintada com material fluorescente posta a dois metros do tubo brilhava em meio a escuridão cada vez que ocorria uma descarga entre as duas placas metálicas.

Algo emanado do tubo catódico estava irradiando a tela fluorescente. Empolgado com sua descoberta Röntgen se enfurnou em seu laboratório por duas semanas explorando as propriedades físicas dessa forma desconhecida de radiação, que chamou de raios “X”. Os raios X tornaram-se uma sensação imediata. O mundo inteiro ficou fascinado por esses misteriosos raios que podiam atravessar materiais que refletiam a luz visível.

Quando um jornalista perguntou a Röntgen: “O que você pensou durante sua descoberta?”, ele respondeu: “Eu não pensei, eu investiguei”. A uma segunda pergunta: “Mas o que são esses raios?”, Röntgen confessou: “Eu não sei!”[3]

Seria a sorte o segredo para as grandes descobertas científicas?

Seria muito fácil e injusto classificar os cientistas que se beneficiaram da serendipidade de sortudos. Todos esses cientistas e inventores conseguiram aproveitar suas observações casuais somente depois de terem acumulado conhecimento suficiente para colocá-las num contexto.

A descoberta da penicilina por Alexander Fleming foi resultado de um esporo do fungo Penicillium flutuando através de uma janela e caindo em uma placa de Petri, matando uma cultura de bactérias. È bem provável que muitos cientistas já tivesse tido culturas de bactérias contaminadas pelo fungo Penicillium, mas acabaram descartando suas amostras, frustrados, em vez de ver ali a oportunidade para descobrir um antibiótico que salvaria milhões de vidas.

São muitos os exemplos de descobertas importantes feitas por acaso. O acaso, já dizia Pasteur, só favorece aos espíritos preparados e não prescinde da observação. Um exemplo interessante que ilustra esta afirmação é como um contratempo na limpeza da cozinha com um avental de algodão resultou no desenvolvimento dos explosivos modernos e da indústria cinematográfica.

Na década de 1830, descobriu-se que a celulose era solúvel em ácido nítrico condensado, e que essa solução, quando derramada na água, formava um pó branco altamente inflamável e explosivo. Em 1845, Friedrich Schönbein, de Basiléia na Suíça, realizava experimentos com misturas de ácidos nítrico e sulfúrico na cozinha de sua casa, para desgosto de sua mulher, que [talvez compreensivelmente] havia proibido rigorosamente o uso de sua residência para práticas desse tipo. Um dia, quando a Sra. Schönbein não estava em casa, ele derramou um pouco da mistura de ácidos no chão. Na pressa de limpar rapidamente a sujeira, agarrou a primeira coisa à mão – o avental da mulher.  Depois de enxugar o líquido derramado, pendurou o avental em cima do fogão para secar. Não demorou muito e o avental explodiu[4].

Percebendo a lucratividade potencial de sua descoberta, Schönbein construiu fábricas para manufaturar nitrocelulose, na esperança de que ela pudesse ser uma alternativa á pólvora. Mas a nitrocelulose pode ser um composto extremamente perigosos, a menos que seja mantida seca e manipulada com devido cuidado. Na época como não se compreendia o efeito desestabilizador do ácido nítrico residual sobre a matéria, várias fábricas foram acidentalmente destruídas por explosões violentas, levando Schönbein à falência.

Mais tarde, o colódio, uma nitrocelulose misturada com álcool e água, foi amplamente utilizado nos primórdios da fotografia. A celulóide, uma mistura de nitrocelulose com cânfora, foi um dos primeiros plásticos de sucesso, utilizado inicialmente como filme cinematográfico.

Um dos casos mais famosos de serendipidade foi a descoberta da Radiação Cósmica de Fundo. Na primeira metade do século XX os cientistas George Gamow, Ralph Alpher e Robert Herman tinham calculado e previsto que o universo deveria possuir uma radiação em microondas – resquícios do Big Bang – e a descoberta deste eco poderia provar que o universo teve um início quente e denso e evoluído para uma expansão fria e rarefeita de matéria. Infelizmente nessa época ninguém se preocupou em detectar a Radiação Cósmica de Fundo, embora tecnologia para isso estivesse disponível.

Em 1964, enquanto trabalhavam para a Companhia Telefônica Bell (Bell Labs) Anro Penzias e Robert Wilsons tentavam eliminar ruídos e “purificar” o sinal recebido por uma antena apontada para o primeiro satélite de comunicação ativa. Penzias e Wilson pensaram que os ruídos poderiam estar sendo causados por problemas na instalação ou mesmo pela poluição atmosférica. Chegaram até a retirar um ninho de pombos que encontrava-se no interior da antena, juntamente com seus “restos”, a que Penzias e Wilson se referiram como sendo “uma substância dielétrica branca”. Mas não adiantou, a ruído permanecia independente da direção em que a antena era apontada, ou seja, o ruído parecia vir de todas as direções. Confrontados com esse dilema, Penzias e Wilson fizeram o que a maioria dos cientistas faz quando está em apuros: conversaram com seus colegas, na esperança de que alguém tivesse alguma idéia de como lidar com o problema.

Para resumir, Gamow, Alpher e Herman tinham previsto a Radiação Cósmica de Fundo (RCF) em 1948, mas em um espaço de uma década essa previsão foi esquecida pela comunidade científica. Por isso, em 1964, Penzias e Wilson não perceberam o que haviam descoberto. Nesse mesmo ano um grupo de pesquisadores da Universidade de Princeton, liderado por Robert Dicke, estavam construindo uma antena de rádio desenhada especialmente para captar a RCF. De modo atrasado e independente, Robert Dicke e James Peebles estavam repostulando a RCF, prevista por Gamow dez anos antes.

De repente tudo parecia se encaixar e finalmente o ruído que infestava o radiotelescópio era compreendida. Não tinha nada a ver com pombos, falha nas instalações, mas tinha a ver com a origem do universo.

Todos os exemplos tirados da história da ciência e discutidos acima têm um ponto em comum, ou seja, o acaso. É verdade que os resultados obtidos não eram esperados, mas aconteceram diante de cientistas preparados para interpretar e enxergar aplicações para suas descobertas.

Além disso, aqueles que querem ser tocados pela serendipidade devem estar prontos para abraçar a oportunidade quando esta se apresenta, em vez de apenas escovar as calças cobertas por sementes, jogar fora a supercola fracassada na pia ou descartar as culturas bacterianas contaminadas. Wintson Churchill uma vez observou: “os homens ocasionalmente tropeçam na verdade, mas a maioria se equilibra e vai embora como se nada tivesse acontecido”

 

Bibliografia consultada

ALVES, Rubem; Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras. 12° Edição. São Paulo: Loyola, 2007.

CHALMERS, Alan; O que é ciência afinal?. São Paulo: Brasiliense, 2001.

COUTEUR, Penny Le; BURRESON, Jay; Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

FEYERABEND, Paul K; Contra o Método. São Paulo: UNESP, 2003.

GLEISER, Marcelo; A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

SANTOS FILHO, Gildo Magalhães; Introdução à Metodologia da Pesquisa: Caminhos da Ciência e Tecnologia. São Paulo: Ática, 2005.

SINGH, Simon; Big Bang. Rio de Janeiro: Record, 2006.

 


[1] Para saber mais sobre esta questão ler CHALMERS, Allan. O que é ciência afinal?. São Paulo: Brasiliense, 2001.

[2] Mais exemplos de serendipidade podem ser vistos em SINGH, Simon. Big Bang. Rio de janeiro: Record, 2006.

[3] Extraído de GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

[4] Extraído de COUTEUR, Penny Le; BURRESON, Jay; Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

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