Aquecimento Global – Fenômeno Natural ou Interferência Antrópica?

O objetivo deste ensaio é discutir como o aquecimento global tem sido abordado, principalmente, em reportagens veiculadas em TV aberta, documentários e no cinema. Quais são as principais causas responsáveis pelo fenômeno e até que ponto a interferência antrópica influencia o clima do planeta.

 Introdução 

A maioria das reportagens sobre aquecimento global tem um discurso apocalíptico, transmitindo uma mensagem onde parece que o mundo vai acabar dentro de algumas semanas. Reforçando esse discurso, produções como O dia depois de amanhã  colaboram em criar esta imagem do fim do mundo, ou no mínimo da extinção do ser humano, em função de mudanças climáticas bruscas. Evidências fósseis indicam que extinções em massa ocorreram várias vezes ao longo das eras geológicas, muitas delas, provavelmente, resultantes de mudanças climáticas. Entretanto, é preciso desmistificar o tema que envolve aquecimento global. Desse modo, um estudo sobre as causas do fenômeno e o modo como ele se desenvolve é extremamente importante no momento de filtrar as informações que são transmitidas.

 Mudanças climáticas bruscas podem mesmo ocorrer em um futuro próximo ou trata-se apenas de exageros dos estúdios da Fox? A resposta a essas perguntas aparentemente é sim. Alley (2004) argumenta que não precisamos temer uma era glacial completa nas próximas décadas, mas mudanças climáticas repentinas já ocorreram antes e podem ocorrer novamente. Na verdade, elas provavelmente sejam inevitáveis.

 Existe o consenso científico de que as atividades humanas começaram a ter efeito no aumento da temperatura da Terra durante os últimos dois séculos. Com o surgimento de fábricas movidas a queima de combustíveis fósseis as sociedades industriais passaram a liberar grande quantidade de dióxido de carbono (CO ) na atmosfera. Mais tarde, veículos a motor contribuíram para o aumento dessas emissões e de outros gases-estufa. Mas antes de descrever a amplitude do problema é preciso perguntar em que momento o ser humano passou a interferir realmente no clima do planeta, e até que ponto esta influência interfere diretamente na natureza.

 Trabalhos recentes sugerem uma hipótese ousada em que práticas agrícolas iniciadas por nossos ancestrais há cerca de 8 mil anos dispararam o aquecimento global milhares de anos antes de começarmos a queimar combustíveis fósseis e andar de automóvel[1].

 Efeito Estufa: herói ou vilão?

 Na grande maioria das abordagens sobre o aquecimento global o efeito estufa aparece como o grande vilão da história.

Mas até que ponto isso é verdade?

De modo geral, o efeito estufa pode ser entendido como a retenção de parte da radiação emitida pelo sol por gases presentes na atmosfera, principalmente dióxido de carbono (CO ), metano (CH ), ozônio troposférico (O ), oxido de nitrogênio (N2O) e clorofluorcarbonetos (CFCs). A conseqüência desse processo é que o calor da Terra fica retido e não é liberado para o espaço tornando-se maior  do que seria na ausência desses gases. Na verdade, a grande parcela da radiação solar nem chega a atingir a superfície terrestre, sendo absorvida pela atmosfera ou refletida para o espaço. Este fenômeno é importante no sentido que garante a manutenção da temperatura média do planeta, funcionando como um regulador térmico. Sem o efeito estufa, a vida na forma como conhecemos não seria possível, pois os dias seriam extremamente quentes e as noites seriam insuportavelmente frias, uma vez que toda a radiação que atingisse a superfície da Terra seria refletida de volta ao espaço. Dentro desse contexto, o efeito estufa assume um papel importantíssimo para a manutenção da vida na Terra.

 O problema começa a ficar sério quando a concentração desses gases começa a se elevar, provocando, ao invés da manutenção da temperatura, o seu aumento, causando imensos prejuízos aos ecossistemas, bem como às formas de vida associadas.

 História do clima na Terra

 Quem assistir ao filme O dia depois de amanhã poderá observar logo no início uma equipe de pesquisadores realizando um experimento numa calota polar em que se retiram amostras do gelo, algumas delas podendo chegar a cerca de 1 quilômetro de comprimento. Essas amostras guardam o testemunho da história do clima na Terra aprisionado em bolhas de ar contidas nas camadas de gelo. As bolhas de ar encontradas nas camadas mais profundas correspondem a épocas mais remotas, enquanto as camadas mais superficiais correspondem a períodos mais recentes da historia do clima na Terra. Desse modo, é possível obter um retrato do clima no planeta ao longo de mais de 300 mil anos. Esse tipo de registro da história do clima no planeta também pode ser obtido estudando anéis de crescimento em troncos de árvores ou em sítios arqueológicos analisando rochas sedimentares como no Parque do Varvito em Itu, interior de São Paulo.

 Esses estudos mostram que o clima no planeta Terra oscilou muitas vezes entre períodos glaciais e períodos interglaciais. Nos últimos anos, testemunhos de gelo obtidos em perfurações nas calotas polares da Antártida e da Groenlândia têm fornecido pistas valiosas sobre como era o clima da Terra no passado, incluindo mudanças nas concentrações de gases de efeito estufa. Esses estudos tem mostrado que oscilações na órbita da Terra num ritmo de 22 mil anos tem influência direta na proporção de gases como o metano. Esse ciclo orbital chamado de precessão é conhecido a muito tempo pelos cientistas. À medida que a Terra gira em torno do seu eixo, ela “bamboleia” como um pião quando este está diminuído sua velocidade angular, balançando lentamente o Hemisfério Norte para mais perto do Sol, depois afastando-o outra vez.

Que influência este ciclo orbital pode realmente exercer sob o clima do planeta?

Se uma inclinação de pouco mais de 23° é responsável pelas diferentes estações que observamos ao longo do ano, é possível ter uma idéia de como a inversão desta inclinação para mais perto ou mais longe do sol, por um período de 11 mil anos, pode exercer uma grande influência para a estabilidade do clima. Ruddiman (2005) argumenta que quando esse bamboleio precessional traz os continentes para mais perto do sol no verão, a atmosfera recebe uma grande injeção de metano de sua fonte natural primária, a decomposição de matéria orgânica em áreas alagadas.

 Interferência antrópica e gases-estufa.

 Sabe-se que o clima na Terra varia, alterando períodos glaciais e interglaciais. Estas oscilações são marcadas pela variação natural nas concentrações de gases-estufa. Entretanto, observa-se que neste atual período interglacial a concentração desses gases tem sofrido uma grande elevação quando comparada a períodos interglaciais anteriores. Ruddiman (2005) conclui que um novo elemento deve ter entrado em operação na Terra nos últimos 8 mil anos. De acordo com o referido autor, este novo “fator” operando no sistema climático é a agricultura. Várias atividades agropecuárias produzem metano. Além disso, homens e animais emitem metano nas fezes e nos gases intestinais. Todos esses fatores provavelmente contribuíram para o aumento gradual nos níveis de metano enquanto o crescimento vegetativo aumentava lentamente.

 Outra prática comum ligada à agricultura é o desmatamento e as queimadas, fatores que explicam o aumento na concentração de dióxido de carbono.

 O último período glacial terminou há aproximadamente 10 mil anos, e o estudo da concentração de gases-estufa sugerem que o atual período interglacial está durando tempo demais, ou seja, se os gases-estufa tivessem continuado sua tendência natural de declínio, a Terra teria se tornado consideravelmente mais fria do que é hoje. Para se ter uma idéia, estima-se que a média global na ultima era glacial é apenas 5 a 6° mais baixas do que hoje. Como conseqüência, as temperaturas atuais estariam a caminho das glaciais típicas se não fossem as contribuições de gases-estufa da agricultura primitiva e da posterior industrialização[2].

 Considerações Finais

 Muitos cientistas aventaram a hipótese que as mudanças climáticas que ocorreram agora ou que ocorrerão no futuro podem ser devidas às atividades antrópicas. De acordo com Vianello e Alves (2006) isto está realmente demonstrado em uma escala local nas áreas urbanas. Um claro e bem documentado exemplo está no fenômeno local denominado efeito do aquecimento urbano isolado, que se refere ao aquecimento das grandes cidades. Entretanto, em uma escala geográfica global os efeitos humanos são de uma importância menor, se comparados com a magnitude da variabilidade climática natural.

  Os efeitos do aquecimento global estão evidenciados em diversas regiões do planeta, como no caso do derretimento das calotas polares que no futuro poderão elevar o nível dos oceanos, a intensificação de fenômenos atmosféricos como furacões e ciclones extra-tropicais, secas, prejuízos para a agricultura moderna, etc. Medidas antipoluentes devem ser tomadas imediatamente, pois a Terra e sua atmosfera constituem um sistema finito, com capacidade limitada de reprocessamento de gases produzidos perto da superfície (GLEISER, 2005). O problema relacionado à diminuição das emissões de gases-estufa envolve prejuízos à economia das grandes potências mundiais, que são justamente as grandes responsáveis pelas maiores porcentagens de poluição. O filme O dia depois de amanhã retrata um vice-presidente muito parecido com Dick Cheney (ex-Vice-Presidente dos Estados Unidos), que adota uma postura absolutamente contra medidas antipoluentes.

 Sobre a abordagem de temas como o aquecimento global em filmes e documentários temos O dia depois de amanhã como uma produção que, exagera, e inventa ciência para criar um enredo emocionante. Gleiser (2004) questiona se cabe aos professores e cientistas tentar “consertar” a ciência dos filmes, escrevendo cartas e artigos sobre o assunto. Será que faz sentido criticar a indústria cinematográfica pelos erros crassos?

 Nesse caso é preciso considerar a diferença entre um filme e um documentário científico. Documentários devem retratar fielmente a ciência. Enquanto os filmes não têm um compromisso pedagógico, além disso, as pessoas não vão ao cinema para serem educadas, ao menos como via de regra. Isso não significa que professores não devam usar filmes na sala de aula. Essa ferramenta pode ser muito útil no sentido de mostrar o que é cientificamente correto e o que é absurdo.

 Portanto, planejar o futuro é condição fundamental para a preservação da qualidade de vida do planeta Terra. E o futuro já chegou! Medidas antipoluentes devem ser tomadas imediatamente. O aquecimento global é um fenômeno concreto com conseqüências sérias, tanto para a sociedade quanto para o equilíbrio ecológico do planeta. Nunca na história do planeta uma espécie teve condições para refletir e decidir sobre seu futuro.

 Mudanças climáticas estão sendo observadas. A questão não é se vai ou não acontecer, mas sim quando. Nossos antepassados sobreviveram ao último período glacial. Será que nós sobreviveremos ao próximo?

 Referências Bibliográficas

 Alley, Richard B. Mudanças climáticas bruscas.  Revista Scientific American Brasil. Ano 3 – nº31, dezembro de 2004. 

 Gleiser, Marcelo. O Protocolo de Kyoto entra em ação. Jornal Folha de São Paulo – Caderno Mais. MICRO MACRO. 20 de fevereiro de 2005.

 _____________ Ciência e Hollywood. Jornal Folha de São Paulo – Caderno Mais. MICRO MACRO. 31 de outubro de 2004.

 Hansen, James. Desarmando a bomba-relógio do aquecimento global. Revista Scientific American Brasil.Ano 2 – nº23.  Abril de 2004.

 Ruddiman, Willian F. Quando os humanos começaram a alterar o clima? Revista Scientific American Brasil. Ano 3 – nº35, abril de 2005.

 Vianello, Rubens Leite; Alves, Adil Rainier. Meteorologia Básica e Aplicações. Editora UFV. Viçosa – MG. 4º reimpressão. 2006.

 


[1] Ruddiman, Willian F. Quando os humanos começaram a alterar o clima? Revista Scientific American Brasil. Ano 3 – nº35, abril de 2005

[2] Hansen, James. Desarmando a bomba-relógio do aquecimento global. Revista Scientific American Brasil.Ano 2 – nº23.  Abril de 2004.

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